Junho 23, 2020

SÍNTESE // SEGUNDA SESSÃO: 18 DE JUNHO, “ÀS QUINTAS NO DOURO”. O FUTURO DO DOURO.

by admin in ciclo de conversas

Mais rede, mais pensamento de território, mais valorização das pessoas e mais investimento na animação turística.

O ciclo de conversas “Às Quintas no Douro”, uma iniciativa organizada pela Liga dos Amigos do Douro Património Mundial, com a colaboração da UTAD, continuou no dia 18 de junho com um novo painel de oradores, moderado por António Filipe: Luís Pedro Martins (Presidente do Turismo do Porto e Norte), Gaspar Martins Pereira (Universidade do Porto), Orlando Sousa (ICOMOS Portugal) e Teresa Albuquerque (Fundação da Casa de Mateus).

Em foco esteve a resposta à crise e aos desafios dela decorrentes, tendo como pano de fundo a dinamização do turismo e a valorização do património duriense.

As ideias partilhadas pelos oradores não deram total razão à tese de Tiago Alves de Sousa, apresentada na conversa de 28 de maio, de que “a natureza fez o mais difícil”, ou seja, a geologia, o rio e o todo seu entorno. Na verdade, se foram sobejamente salientados os atributos únicos e especiais da região, que resultaram em grande medida de uma construção humana de séculos, como a própria paisagem, o património histórico e cultural, e a “marca universal” que é o vinho do Porto, como referido por Gaspar Martins Pereira, também foram elencadas dificuldades persistentes que limitam um desenvolvimento mais sustentável e inclusivo.

No plano turístico, Luís Pedro Martins ressaltou a necessidade de resolver os entraves à mobilidade, de forma a “permitir mergulhar no Douro”, ou seja, chegar à região com rapidez e segurança, nomeadamente através da ferrovia, assim como a importância do estabelecimento de “uma nova relação com os vizinhos espanhóis”, dialogando com os atores mais relevantes, e de investir mais na animação turística enquanto “óleo que liga tudo, o rio, o património, as quintas,…”. Por outro lado, referiu a necessidade de mais trabalho em rede, dizendo que se pode ser competidor na venda, mas tem de se trabalhar em conjunto na promoção. Nesta mesma linha, Gaspar Martins Pereira afirmou que “o grande problema do Douro são os ‘muros’ que existem no próprio Douro”, que se refletem na falta de diálogo e de um pensamento coletivo, de uma estratégia regional, ideia também reforçada por Teresa Albuquerque quando afirmou que “há um défice de pensamento de território”.

A crise atual não deixa de ter algo positivo, nomeadamente uma consciência acrescida sobre as limitações e uma outra visão sobre as oportunidades, como manifestou Teresa Albuquerque ao falar da experiência da Casa de Mateus, que procura caminhar de um “turismo desgastante, de massas, para algo mais qualificado e sofisticado, com mais valor acrescentado”, que necessita de recursos humanos com outras competências, bem como de um outro patamar de trabalho com a comunidade, de formar a tornar mais inclusiva a fruição do património.

A valorização dos durienses foi muita salientada, nomeadamente quando Gaspar Martins Pereira disse que há que ter “uma estratégia regional para abarcar todos os homens do Douro, os homens do universo do vinho do Porto – também os galegos, os ingleses, os flamengos, que são esquecidos –, pois o Douro é uma criação universal”, não esquecendo os muitos que estão na diáspora, que são mais de um milhão. No mesmo sentido, Orlando Sousa indicou que há que “valorizar a população e trazê-la para a gestão do território”, assim como qualificar os jovens, criar emprego com novos projetos, atrair gente, valorizar o conhecimento dos mais velhos, aproveitar o que sabem sobre este património excecional, traduzir a investigação para a população e os visitantes, acrescentando que tal é fundamental para implementar um novo modelo de turismo, assente no lazer, na paisagem e na aprendizagem (os três L, Leisure, Landscape, Learning).

Em síntese, temos pela frente, citando as palavras de Gaspar Martins Pereira, “uma pátria vinhateira com uma espessura histórica extraordinária, com centenas de anos”, a qual tem atributos e recursos nem sempre devidamente valorizados, problemas humanos graves, nomeadamente a perda de população e a enorme dificuldade em repor gerações, e uma crónica fragmentação institucional e territorial. O seu desenvolvimento exige quebrar os muros mentais que bloqueiam a formulação de um pensamento de território, a cooperação e o trabalho em rede em todos os domínios, bem como dinâmicas mais integradas, integradoras e participadas.

Os desafios não são pequenos. A natureza fez a sua parte, não sendo claro se fez realmente o mais difícil. Temos um Douro único e especial. Há caminho andado, mesmo na cooperação, como demonstrado pelo exemplo feliz da Rede de Museus do Douro.

Aos homens e mulheres de hoje e amanhã compete continuar esta obra de muitos séculos.