Dezembro 4, 2020

SÍNTESE // CONVERSAS “ÀS QUINTAS NO DOURO”, 6ª SESSÃO DIA 19 DE NOVEMBRO 2020: “”Rios Douro, que caminhos para a Água””

António Filipe dá as boas vindas a todos e agradece a presença dos oradores, apresentando-os brevemente. Refere que apesar da pandemia ter obrigado a LADPM a este novo tipo de iniciativas, as mesmas têm tido muito interesse e adesão pelos temas e pela qualidade dos convidados. Agradeceu também à UTAD a possibilidade de utilização da plataforma ZOOM e da gravação da videoconferência, para posterior publicação no Facebook.

Informou ainda que tal como nas cinco sessões anteriores será produzido um resumo escrito sobre a multiplicidade dos vários Douros: ecossistema, paisagem, agricultura, desporto, turismo, rio internacional, barragens, economia, gentes contentes pelos benefícios aportados por estas características, mas preocupadas pelo excessos que as mesmas podem implicar: a eventual escassez de água em contexto de alterações climáticas.

Artur Cristóvão na qualidade de moderador invocou a especialização e saberes de cada orador e foi colocando questões que permitissem uma abrangência e diversificação temáticas enriquecedoras desta sexta Às Quintas no Douro – “Rios Douro – que caminhos para a Água”.

O primeiro orador, Rui Cortes, professor catedrático da UTAD e membro da Comissão Nacional das Águas e das Bacias dos Rios, referiu-se à ecologia dos rios e à necessidade de preservar a qualidade da sua água para que possam continuar a ser espaços de interesse conservacionista do valor ambiental para a biodiversidade, a paisagem e as áreas protegidas. Mostrou-se preocupado com o impacto dos fogos florestais nas bacias hidrográficas florestadas tendo por consequência a elevação dos rios com perda de solos e maior lixiviação de nutrientes. A ocorrência de hidrofobicidade (menor absorção de água pelos solos) implica perda de solo nas zonas mais declivosas e assoreamento nas margens. Deixa de haver interesse na construção de novas barragens ou na manutenção de algumas, com base num trabalho de identificação de barreiras cujo tempo de vida útil já foi excedido e que podem constituir perigo não só pela hipótese de derrocada, mas também de perda nutrientes favoráveis à biodiversidade. Sendo os caudais da qualidade da água definidos pela Convenção da Albufeira constata-se que a esta não está a ser cumprida uma vez que a água do Douro vinda de Espanha, onde se pratica uma agricultura intensiva, vem poluída e só vai melhorando a sua qualidade e oxigenação à medida que se aproxima da foz.

Fernando Alves, na sua qualidade de investigador e de técnico superior de viticultura, foi desafiado a dar conta da sua experiência em prol da economia vitícola e na área investigativa em termos da realidade dos rios Douro, afirmando que o rio Douro é elemento indelével da paisagem da região e um dos suportes à identidade da economia da mesma, tanto no apoio a atividades da economia vitícola como no apoio ao Turismo. A marca paisagística do rio ficou bem evidente no Projeto Life + BioDiVine pelo contributo dado pelas estruturas ripícolas no fomento da biodiversidade funcional de suporte à vinha. A região do Douro tem um clima marcado por uma assimetria quanto à precipitação, mais seco e quente à medida que subimos o rio, mas com predominância das zonas mais quentes nas cotas baixas ao longo da região.

No domínio da Investigação e Desenvolvimento em Viticultura, têm sido privilegiados os estudos de formas sustentáveis de armação do terreno que controlam a erosão e simultaneamente salvaguardam o rio dos efeitos das matérias lixiviados no processo erosivo. Por outro lado, é conhecida a evolução do clima nos últimos 40 anos, com aumento do número de dias quentes e muito quentes, aumento da temperatura média durante a estação de crescimento da videira e projeções para num futuro próximo se agravar esta tendência a par da diminuição da precipitação. As questões do uso sustentável da água pela videira têm assumido uma importância capital. Os esforços realizados têm sido canalizados para formas de exploração da vinha que optimizem o consumo de água pela videira, essencial para o normal metabolismo da planta.

Sabendo-se da importância da possibilidade de uso de rega deficitária (abaixo das reais necessidades da videira – promovendo mecanismos de regulação por parte da planta), o sector vitivinícola manifestou preocupação pelo facto de na recente consulta púbica sobre as Questões Significativas do Uso da Água, a bacia hidrográfica do Douro não ser considerada de intervenção prioritária, nomeadamente quanto à política de constituição de reservas estratégicas para suporte das populações e apoio às atividades económicas na Região e aos compromissos de equilíbrio com as questões ambientais.

Joaquim Gonçalves, como membro da administração APDLA, a qual tem por objectivo a exploração comercial e de lazer do Douro, das eclusas e infraestruturas, foi questionado sobre quais os benefícios que decorrem dessa actividade. Considera que a integração do rio Douro na rede de transportes europeia de via navegável trouxe grandes benefícios qualitativos para território, que têm sido acompanhados por vários investimentos já concluídos, que lhe conferiram uma importância nunca imaginável há uma década. Entre elas está o desenvolvimento de cartografia e sinalização da via, também para operações nocturnas, e de um sistema de identificação de embarcações (RIS), permitindo o trânsito de 186 embarcações de vários tipos e tamanhos. Estão ainda previstos investimentos para a monotorização das eclusas, o alargamento de caudal na Valeira e o alargamento e aprofundamento do canal de navegação do Douro no troço da ilha do Saião, Foz do Sabor, Pinhão. Foram também criadas infraestruturas de apoio, por contrato de prestação de serviços, com vista à deposição dos resíduos sólidos nos portos onde atracam e ao controlo da qualidade da água. No que se refere ao turismo, em 2009, havia 7 barcos hotel e hoje existem 25, havendo vários pedidos para de mais. Apesar daquilo que apelida de profissionalização da infraestrutura aceita que ainda há alguns problemas de qualidade da água e de erosão das margens que causam alguns conflitos de interesse para resolver.

Ricardo Próspero, conhecido pelas suas posições face às barragens enquanto membro do GEOTA, foi questionado sobre se “as barragens estão mesmo a matar o rio”. Considera que há efeitos muito negativos das barragens no rio e segundo os estudos que tem desenvolvido com Rui Cortes, no âmbito da Rede Douro Vivo, verifica-se que há uma enorme expansão do regadio para norte, o qual sendo necessário para assegurar a rendibilidade dos terrenos para os seus proprietários, os preocupa às culturas que a ele possam vir a ser associadas, já que há alguns tipos de cultura intensiva inconciliáveis com a manutenção da biodiversidade, ecossistemas e eventualmente com a própria interconectividade fluvial. Referiu ainda que só recentemente a Rede Douro Vivo obteve a caracterização de todo o rio e do número de barreiras realmente existentes o que tornava complicada a gestão de um rio como o Douro e dos seus recursos hídricos. Acresce que há uma enorme disparidade entre o rio em Espanha, com muita pobreza de ecossistemas devido ao excesso de barragens, ao contrário do que acontece na região portuguesa possuidora de alguns santuários de biodiversidade consideráveis. Segundo Rui Cortes, há 25% de barreiras obsoletas, havendo de facto uma influência muito negativa das mesmas no rio. Sendo uma preocupação, foi criada recentemente uma Iniciativa de Cidadãos de Legislação dos Rios Livres que está em recolha de assinaturas. Considera que há medidas que se podem tornar relevantes face à situação apresentada, tais como a eliminação das barreiras inúteis e não aquelas que têm um papel sócio-económico, uma maior eficiência energética, ou que recorrem às fotovoltaicas para garantir a rendibilidade dos produtores e o provimento dietético da população a preço justo. Mas tudo tem que ser estudado caso a caso.

Tendo havido temas cruzados nas intervenções, numa segunda ronda Artur Cristóvão propõe aos vários oradores se comentem entre si.
Rui Cortes questiona Joaquim Gonçalves sobre algo que é constatado pelos municípios ribeirinhos do Douro que é o elevado prejuízo causado pelo efeito erosivo das embarcações nas margens, esperando que exista essa preocupação da APDL; ao Fernando Alves pergunta como se controla a erosão e o escoamento com novos processos de patamares e da vinha ao alto.

Fernando Alves invocou estudos realizados pelo Prof. Tomás Figueiredo (E.S.A.B.) sobre os talhões da Quinta de Santa Bárbara e as suas vinhas ao alto e informou que embora a sua geografia assuste, a erosão é superficial e pode ser contornada através da construção de uma rede de drenagem da encosta e de um sistema de estradas que apoiam o trabalho nessas parcelas. Quanto à cinética de escoamento da água, o solo de excessiva pedregosidade e a sua fragmentação por maquinaria adequada já permite uma menor acumulação de água. Patamares bem construídos não apresentam problemas na presença de um fenómeno excessivo de pluviosidade, mas constata-se que a vinha ao alto é cada vez menos usada, ou então é construída com uma inclinação cada vez menor. Ricardo Próspero subscreveu as palavras de Fernando Alves, mas lembrou que um estudo da APA sobre os perigos das bacias hidrográficas dos rios ignorava este aspecto erosivo relativamente a um rio que suporta a agricultura e o turismo, não devendo ser comparado ao Tejo e ao Guadiana.

Joaquim Gonçalves relembrou as medidas de obrigatoriedade de entrega de resíduos sólidos nos locais adequados havendo coimas para combater a descarga directa nas margens. Considera que as embarcações contribuem para a erosão, mas não é muita uma vez que têm a sua velocidade controlada através das esperas nas eclusas. Esta velocidade poderá ser mais difícil de controlar nas embarcações de recreio, mas não é conhecida nenhuma margem instável no Douro.

Artur Cristóvão encerra a conferência afirmando que o Douro, considerados os aspectos discutidos e acrescentada a conservação da classificação pela UNESCO, é de facto um rio de enorme complexidade!

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